Há obras que reafirmam por que a arte existe. Elas surgem quando o desejo de fazer parte da História se cruza com a inconformação diante das imagens, símbolos e formas já estabilizados e aceitos pelos diversos públicos artísticos. Entre elas, está Mais e mais de Tomie Savaget. A instalação desloca o origami de sua escala e contextos usuais. Das funções ritualísticas na China Antiga à apropriação por engenheiros, arquitetos e matemáticos no século XX, a técnica ficou associada ao Japão no imaginário popular, país onde só foi difundida a partir do século VI.


Em Mais e mais, a artista toma como referência especificamente o kusudama, origami modular onde habitualmente são guardados ervas e remédios. Ao mesmo tempo, Savaget também observa o origami como cultura, com a qual cresceu em contato, a partir de sua disseminação pela colônia japonesa no Brasil. Na base de sua formação artística — junto à UFRJ e à Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ambas no Rio de Janeiro, e à Université Paris 8 Vincennes-Saint-Denis, em Paris, França —, a familiaridade com essa tradição sustenta a desenvoltura com a qual Savaget transita entre os discursos sobre a arte e o artesanato, trazendo esse saber milenar para a arte contemporânea.


Historicamente associado ao cotidiano e ao feminino, o origami é convertido em um elemento de linguagem e escala públicas: o que era hábito, se torna construção. Ele é reconfigurado como forma aberta, contínua e espacial, deixando sua condição isolada para existir como um corpo anelar e contínuo, de estrutura modular e entrelaçada, no qual apenas um trecho se deixa ver.
Interessada mais em estruturar que representar, Tomie Savaget cria a presença no espaço sem recorrer à figuração, se valendo das linhas sinuosas que evocam ritmo e fluxo. Mais e mais é uma convergência: condensa horas de trabalho manual, a duração de um conhecimento ancestral e se afirma como investigação abstrata.




