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O DRAGÃO E A LUA

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Foto de Christiane Laclau

Christiane Laclau

Fundadora da Artmotiv

A obra de Sandra Lapage se constrói a partir de um gesto simultaneamente arcaico e contemporâneo: recolher os restos do mundo e reinscrevê-los como força simbólica. Seus trabalhos, frequentemente situados entre escultura, instalação e performance, alargam o imaginário e instauram tensão. Matéria descartada e fabulação ritual se entrelaçam, produzindo formas que parecem tanto relíquias de um futuro colapsado quanto artefatos de um passado mítico que insiste em sobreviver.

Em “O dragão e a lua”, a artista apresenta uma tapeçaria-mapa. De impacto visual e sugestão narrativa, a obra é composta de objetos da natureza e do cotidiano, muitos descartados — principalmente cápsulas de café, produto marcante na história do Brasil. A mistura de matéria orgânica e plástica denuncia o excesso do consumo e seduz pelo brilho e pela complexidade formal. Nesse campo visual, o dragão e a lua não aparecem de forma literal: surgem por pareidolia, fenômeno psicológico em que reconhecemos imagens familiares em formas dispersas. O lixo não desaparece, é reorganizado até sugerir essas figuras.

Lapage desenvolveu este olhar em uma residência em Nova York, durante uma crise com a ideia de arte como extensão egóica do artista. Em uma exposição do artista ganês El Anatsui, impressionada com o reuso de descartados e as técnicas manuais, encontrou um caminho para o que viria a fazer. Sua composição de uma grande peça trama histórias coletivas e faz surgir imagens enigmáticas, que dependem do olhar para se completar.

Se a modernidade prometeu separação entre natureza e cultura, sujeito e objeto, Lapage insiste na contaminação. Sua obra carrega marcas de um mundo saturado e a possibilidade de fabulação, onde o excesso pode ser reorganizado e novas formas de relação podem emergir.

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