Em Alma, Antonio Kuschnir apresenta uma nova fase de sua produção. Sua pintura, até aqui marcada pela presença recorrente da figura humana, volta-se agora para o mundo natural. Com este deslocamento conceitual, o artista não somente leva a natureza ao centro da cena como confere autonomia às criaturas que habitam suas composições. Recorrendo a formas de compreender o mundo que escapam aos modelos científicos, iluministas e ocidentais, Kuschnir concebe esses seres como simbólicos plenamente dotados de alma.

Recusando uma representação naturalista, Kuschnir materializa a nova poética em imagens de aspecto híbrido pouco afeitas à perspectiva clássica, fundindo animal e paisagem, bem como suas respectivas almas. Forma-se uma continuidade visual pulsante entre padrões vegetais, curvas e sinais que atravessam a superfície pictórica e os animais que parecem prolongar movimentos da vegetação ao redor. Galhos transformam-se em linhas de força, a própria noção de corpo se expande e instaura uma conversa entre subjetividades pré-humanas, ressoando para além do tempo presente. A serpente, por exemplo, é aquilo que vemos, mas também o traçado da memória dos rios.


Sem reduzi-las às categorias de dominador e dominado, Antonio Kuschnir nos oferece estas criaturas da natureza como expressões de uma mesma energia — força que alimenta e dá vida, movimenta e circula em folhas, frutos, estrelas, vento e luz, fazendo do espaço um mesmo organismo vivo. Força essa que pode nos invadir também por meio da pintura, quando ela atinge sua capacidade máxima.





