O olhar sensível de Leonardo Damonte para o mundo torna qualquer coisa elegível como matéria de sua obra. Suas esculturas e instalações se somam à tradição de construir com os duplos e as dobras de objetos que originalmente tinham um uso cotidiano. Ou seja, a forma ainda está lá, mas já sem o contexto primeiro em que foi inserida, marcado pela vulgaridade. Ao levá-los do universo doméstico para o artístico, o artista interroga as formas e também a dissolução do belo em meio ao mundo ordinário.


Com a lógica utilitária interrompida, vassouras, correntes, rebites, boias, brinquedos de cachorro, puxadores de gaveta, cordas, fontes luminosas e tantos outros objetos assumem arranjos inéditos, tendo a legibilidade como ferramenta para inventar figuras muito particulares. No diálogo fértil da arte contemporânea com a ideia da gambiarra, tanto na superfície quanto na estrutura, as composições de Damonte oscilam entre arquétipos de ordem e caos.
De um lado, há uma precisão quase arquitetônica, marcada por alinhamentos, tensões e equilíbrios. Há também uma instabilidade latente, como se cada elemento estivesse prestes a reorganizar a si mesmo e aos demais sob novas regras. É em torno desse ponto que o trabalho de Leonardo Damonte gravita. Cada peça é também parte de um corpo maior, em uma cadeia intrincada que amplia as possibilidades formais.






A vocação cenográfica da obra tem na luz um elemento central. Tão importante quanto os objetos explícitos, seu papel se torna decisivo por ir além de iluminar. A luz estrutura o trabalho, atravessa suas partes, redefine contornos e limites, e chega até a tensionar pesos e massas com sua materialidade de outra ordem. A obra se constrói como um sistema de forças que articula opacidade e brilho, volume e linha, presença física e dissipação.
Leonardo Damonte é um argentino apaixonado pelo Brasil, país que abriu a frente de pesquisa da qual Tipologia ornamental faz parte: uma investigação que preserva o valor de escancarar e também de esconder, de revelar aos poucos e tudo ao mesmo tempo. Nesse lugar, a essência de cada objeto é sacrificada pelas relações que constrói com os outros objetos, com o espaço do ArtWall e com o público do Shopping Leblon, sem que por isso se torne falsa. Seu ser se assume condicionado a todas essas relações. Assim também não somos nós?










