Em sua obra, Fabiana Queiroga se apropria do tempo pela experiência e não pela cronologia. Distante do senso comum e da razão moderna que disseca tudo para poder definir, ela tem como referência vertentes do pensamento oriental que tomam a impermanência como essência do ser. Assim, florescer e murchar seriam partes do mesmo movimento. No limite, é a mesma relação entre a vida e a morte. Nessa perspectiva, o tempo existe porque relações ocorrem a cada instante singular e irrepetível.




Esse tempo particular é matéria do trabalho da artista. A partir da referência oriental, Queiroga construiu um léxico temporal iniciado pela memória — o passado que insiste em permanecer, do jeito que for possível, sem racionalidade — como ponto de partida. Após uma imersão com artesãos em Tiradentes, Minas Gerais, a artista goiana resgatou sua linhagem materna ligada ao fazer manual, da costura ao crochê, e incorporou esse gesto de tecer na pintura: do encontro das flores que já habitavam seus quadros com o movimento das linhas de costura, nasceram os bordados.
Aos poucos, a ancestralidade, outra qualidade de tempo, foi deixando de ser conceito para ser presença: nascimento, duração e morte convergindo na matéria. É nesse ponto que se revela a força do híbrido — entre pintura e bordado, tradição e contemporaneidade, passado e presente. A artista expande esse gesto ao bordar sobre tecidos reciclados de garrafas PET e descartes da indústria da moda, deslocando o industrial para o manual e reativando ciclos de uso, incidindo também sobre a vida das coisas.




Ao pensar o efêmero como continuidade, a artista trata da vitalidade que se renova no que parecia inútil, dignificando cada versão da matéria. Seja na pintura a óleo sobre linho ou no bordado, Fabiana Queiroga nos lança no vermelho — cor da paixão e do sangue, que mata e acende, que circula e se esvai. Artista da matéria e do pensamento, devolve o tempo à sua própria natureza: entre a vida que carrega a morte e a morte que pulsa na vida.




