Manoel Novello constrói sua pintura entre dois estados de espírito: um que projeta meticulosamente e outro que se apresenta como vestígio de um processo em curso. Sua prática parte de uma experiência da cidade, especialmente a do Rio de Janeiro, mas foge do óbvio, recusando as representações diretas ou caricatas. Paisagem e arquitetura tornam-se matéria de sua estrutura pictórica, apropriadas por suas dimensões sensoriais e oníricas.

Linhas horizontais, verticais e diagonais organizam o espaço. Evocam plantas arquitetônicas e, ao mesmo tempo, funcionam como recortes de uma cidade fugidia. As cores delimitam planos e articulam profundidades em jogos de luz e sombra. Dessas relações, surgem linhas que emergem e se desfazem, como a linha do horizonte que, por instantes, se funde a um edifício, compondo uma paisagem que logo desaparece. Que imagem veríamos se derrubássemos as paredes?
Essa pintura é a de um caminhante sensível que vive a cidade com intensidade, vendo e compreendendo em um segundo momento. Caetano Veloso, em “O nome da cidade”, canta: “Cheguei ao nome da cidade / Não à cidade mesma, espessa / Rio que não é rio: imagens / Essa cidade me atravessa”. A cidade atravessa o artista, mas suas pinturas não apresentam a figura humana. Surge então uma hipótese: um mundo simbólico que persiste apesar da presença humana, ou uma lembrança de paisagens renascentistas mais depuradas. Em “Nu com minha música”, Caetano escreve: “vejo uma trilha clara / apesar da dor / vertigem visionária / não carece de seguidor”.




Manoel Novello se aproxima de uma tradição construtiva, mas desloca sua lógica ao envolver a racionalidade das linhas em uma certa bruma. A abstração está presente, atravessada por experiências cotidianas e deslocamentos pela cidade. Ao suspender a leitura imediata do espaço urbano, o artista propõe outra forma de apreensão: uma cidade construída em camadas, aberta, que se revela a quem se dispõe a percorrê-la.





